
Fofoca
Outro dia uma amiga me falou que o irmão dela tinha contado que o amigo dele tinha dito que a prima dele tinha comentado que ia dar um pé na bunda do namorado. O dito cujo estava vacilando.
E o pior: eu conheço o namorado.
O mais terrível do colóquio é que o namorado não sabia que estava prestes a ser chutado, enquanto eu, que não tenho nada com o pato - na verdade, eles são um casal de meros conhecidos - já sabia do fim do caso.
Antes dele.
Antes de ter a audácia hipócrita de fazer um manifesto contra a fofoca, fico pensando no estopim desta necessidade absurda de nos certificarmos de que todo mundo tem problema. E que nenhuma relação é perfeita. E que não é apenas a nossa vida que desanda de vez em quando.
E quem é que nunca, inescrupulosamente, contou para os amigos coisas que não eram da sua conta? Talvez, pelo simples prazer de divulgar uma informação privilegiada. Sim, isso é feio, muito feio. Eu já fiz. Você também.
Humanos têm esse prazer secreto quando assistem ao circo pegar fogo. Queremos ser assessores de imprensa da desgraça alheia.
Diz alguma coisa!

Quando faço as unhas, corto o cabelo, faço sobrancelha, uso roupa e sapatos novos, até que gosto de ser notada, embora ache que esse desejo não passe de ilusão. Imagino que quem mais nota esses detalhes em mim sou eu mesma e que, esteja ou não "repaginada" (como se diz contemporaneamente), as filigranas a que dou tanto valor só são visíveis a olho nu para mim mesma.
Mas tudo bem. Neurótica-aguda-crônica-galopante que sou, fico conferindo, dia após dia, se a cutícula já ganhou meio milímetro de ontem para hoje, se o esmalte sofreu um dano nanométrico que seja ou se aquele cabelo alinhado não está ficando com aspecto rebelde demais.
É, escrevendo isto sem imaginar onde iria chegar concluo que sou portadora de uma nova doença, para qual não há remédio ou cura - sou uma hipocondríaca existencial. Fiquem calmos! Embora possamos notar que há uma epidemia mundial, a doença não é transmissível nem mortal. Há que se conviver com as limitações provocadas por esta singela deficiência que me atinge, e fingir que ter a unha do dedo mindinho do pé meio torta não me abala. Antes que me internem perpetuamente.
Diz alguma coisa!
O Beiço . E agora, Guto? . Esquem'Armado . Living in Sheffield . Moro em Copa
Costurando Retalhos . Letras Mortas . Torcida Tricolor . From Hell Trash Blog